Eu me contento com meias-palavras, meu amor. Não faço questão que jures amor eterno ou que navegues por mares nunca dantes navegados. I am not that unreachable. Podes me alcançar com as mãos atadas. Basta que me peças e sou tua. Mentira, amor, eu já sou tua. Um simples olhar que ameace cruzar com o meu já seria mais do que suficiente e eu te esperarias por uma eternidade. Se preferires, lanço-me através de continentes até o Oriente desconhecido para beijar-lhe os calcanhares. Não sou exigente, meu amor. Não me compete a pretensão de que me desejes - apenas que possas me aceitar quando eu bater à tua porta. Juro não te interromper as orações e nem requisitar fidelidade. Juro que me resguardarei de qualquer sentimento negativo e que estarei à tua disposição - onde, quando e como - desejares. Juro ser tua e somente tua para sempre. Ou não, se assim tu preferires. Assino uma folha em branco para que desenhes como bem entender. Apenas, eu imploro, não me impeças de cruzar estas fronteiras e, quando minha mão estiver a dois centímetros da tua
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2.6.11
18.5.11
ele me deu um livro, joão. um livro! você acredita nisso? mas não foi um livro qualquer. não foi uma daquelas obras pseudo-intelectuais do caio fernando abreu e do hesse que o idiota do meu ex-namorado me intimava a ler. também não foi algo completamente aleatório, da estante dos mais lidos, que a gente dá pras pessoas quando elas estão de aniversário e não se tem a mínima ideia do que entregar embrulhado no papel de presente. ele me deu um livro sorridente, joão. quando passei meus dedos pela capa foi como se reencontrasse uma das minhas leituras favoritas de quando tinha treze anos e meus rosto carregasse um sorriso o tempo todo. foi como se, pela primeira vez, você não tivesse passado pela minha vida e todas aquelas cicatrizes e arranhões se diluíssem em um mar de letras, poesia e açúcar.
lembro que o único presente que você me deu foi um marcador de páginas. um marcador de páginas, joão! não obstante todos os cortes e machucados, tudo o que restou dos nossos três anos foi um pedaço débil de cartolina com a imagem de um anjo torto que me encara toda vez que eu abro meu livro de bolso do pessoa naquele poema até hoje inédito.
eu não o amo, joão. pelo menos não por enquanto. e a sensação que eu tenho é que nunca vou ser capaz de amá-lo por inteiro. é como se uma parte do meu coração tivesse entupido as veias e por ali não passasse mais sangue desde que você se foi e eu só sentisse o peso de um músculo morto debaixo do meio seio esquerdo. é que você, joão, você é pra sempre. você é aquele chiclete que fica com gosto e textura asquerosos de tanto ser mastigado, mas que a despeito de qualquer coisa é eterno. e ele não. ele é um doce açucarado, efêmero e gostoso como uma bala de caramelo, que vai se derreter entre meus lábios e minha língua em um piscar de olhos e então vai passar. ele vai passar, joão, e você vai ficar se decompondo no meu corpo por milhares de anos. eu vou ler todas as crônicas da clarice lispector e o livro dele vai ficar esquecido na minha estante ao lado do caio. enquanto você e seu marcador de páginas idiota vai ficar na minha mesinha de cabeceira. vai ficar, joão. pra sempre.
16.1.11
Gabriel,
aqui é inverno. Domingo passado acordei tarde e quando olhei pela janela vi o céu ainda cinzento, as ruas cobertas pela geada. … o frio, meu querido, o frio. Lembrei de como você ficava feliz quando junho se aproximava e em seguida lembrei das nossas comemorações do dia 21. E daí olhei de novo pra rua, olhei pro frio e pra toda aquela névoa, olhei ao redor e me dei conta de que você não está por aqui pra mais esse inverno. Queria que estivesse, até porque imagino como você - logo você! - deve estar sofrendo com o calor infernal dessas praias. Quantos graus? 30? 35? Sei que você abomina o verão tanto quanto eu e me sinto mal só de te imaginar parado esperando o ônibus com esse sol a pino lá no céu.
Sei que a carta talvez não seja a melhor maneira de falar isso, e que o tempo e a distância entre nós também não ajude, mas o fato, Gabriel, é que se eu não falar isso agora acho que morro de apreensão. Sinto falta de você. Sinto falta dos teus comentários inteligentes entre um gole e outro quando saíamos para os bares, das piadas e das referências que eu, e somente eu, compreendia. Sinto falta das risadas, dos abraços, daquele teu cheiro insuportável de sabonete de bebê. Sinto falta das nossas tardes assistindo a shows e filmes que só nós gostávamos, sinto falta do teu cachecol e dos blusões cinzas. Sinto falta de ti inteiro. E que falta.
E então, sinto raiva. Raiva de ti por estar tão longe, por me fazer sofrer tanto a tua falta e, principalmente, por não ter deixado portas nem janelas abertas pra mim. Mas maior do que isso, sinto raiva e ódio e raiva de mim mesmo por nunca ter dito nada mais claramente. Eu achava que você já sabia mas fingia não saber, ou que sabia mas não falava nada por não corresponder aos meus sentimentos... eu achava tanta coisa que nem sei mais o que eu achava.
Acontece que lembro dos teus olhos negros e a expressão de incompreensão presente neles quando chegava o inverno e você dizia que queria alguém para te aquecer, para assistir a filmes embaixo das cobertas tomando chocolate quente, alguém pra dançar músicas bregas no final de festas mais bregas ainda, alguém para "abrir todas e cada uma das portas". Alguém que tivesse contigo um romance de músicas e de filmes, alguém pra completar teus trocadilhos. E eu permanecia ali. E esperava o momento certo, o momento em que você iria perceber que esse alguém sempre esteve ali e era eu. Mas você nunca, nunca percebia. Você sempre quis alguém em quem se apoiar, e meus ombros que sempre estiveram a tua disposição, esses ombros você nunca usava. Por quê, Gabriel? Por quê? Orgulho? Medo? Eu era bom para ser amigo mas não o suficiente para ser namorado?
E então você fitava os meus olhos e dizia coisas sobre a vida. Dizia que eu sempre poderia conseguir o que eu quisesse, e que eu realizaria todos os meus sonhos. Me incentivava e dizia que eu deveria ir atrás daquilo que eu sonhava. E o que eu fiz, Gabriel? O que eu fiz? Eu acreditei em você, segui todos teus conselhos e vim parar aqui: do outro lado do mundo, em uma cidade fria e cinzenta, longe, longe demais de ti. Pra quê? Pra acordar tarde em um domingo, olhar pela janela e perceber que nada disso valeu a pena? Que ter estudado durante meses sem dormir direito, que ter abdicado da vida pessoal, que ter aturado pessoas inaturáveis, que tudo isso foi em vão? Perceber que o cinza dessa cidade de romântico nada tem, que a neve perdeu a magia e que o frio é realmente frio? Que pra escapar desse gelo que me cerca eu entro em um café e fico procurando teu rosto entre aqueles ingleses, e que eu nunca encontro? Foi pra isso que você mandou eu realizar os meus sonhos? Pra descobrir que nada, absolutamente nada, nem o passeio naquela roda gigante, que nada disso tem valor algum somente porque você não está do meu lado?
Sabe qual é a minha suspeita? Minha suspeita é que todos esses desejos que eu tanto batalhei para realizar, que esse meu sonho britânico seja mais teu do que meu. Que você seja muito mais eu do que eu mesmo. Entende? Eu sei que sim, afinal de contas você sempre entende, portanto não me faça explicar. E também não me pergunte o que é tudo isso porque eu não sei. Não sei se é amor, se é paixão, se é falta de cachaça... eu não sei. Não precisa nem pensar, e se for pra sentir pena então é melhor que não sinta nada. Apenas larga de mão desse capricho bobo de não querer ser conquistado e vem pra cá de uma vez. Vem pra cá viver esse romance de inverno embaixo do nosso céu de Londres.
Com carinho,
Gui.
Ps: As passagens estão dentro do envelope amarelo. Faça bom uso.
-
aqui é inverno. Domingo passado acordei tarde e quando olhei pela janela vi o céu ainda cinzento, as ruas cobertas pela geada. … o frio, meu querido, o frio. Lembrei de como você ficava feliz quando junho se aproximava e em seguida lembrei das nossas comemorações do dia 21. E daí olhei de novo pra rua, olhei pro frio e pra toda aquela névoa, olhei ao redor e me dei conta de que você não está por aqui pra mais esse inverno. Queria que estivesse, até porque imagino como você - logo você! - deve estar sofrendo com o calor infernal dessas praias. Quantos graus? 30? 35? Sei que você abomina o verão tanto quanto eu e me sinto mal só de te imaginar parado esperando o ônibus com esse sol a pino lá no céu.
Sei que a carta talvez não seja a melhor maneira de falar isso, e que o tempo e a distância entre nós também não ajude, mas o fato, Gabriel, é que se eu não falar isso agora acho que morro de apreensão. Sinto falta de você. Sinto falta dos teus comentários inteligentes entre um gole e outro quando saíamos para os bares, das piadas e das referências que eu, e somente eu, compreendia. Sinto falta das risadas, dos abraços, daquele teu cheiro insuportável de sabonete de bebê. Sinto falta das nossas tardes assistindo a shows e filmes que só nós gostávamos, sinto falta do teu cachecol e dos blusões cinzas. Sinto falta de ti inteiro. E que falta.
E então, sinto raiva. Raiva de ti por estar tão longe, por me fazer sofrer tanto a tua falta e, principalmente, por não ter deixado portas nem janelas abertas pra mim. Mas maior do que isso, sinto raiva e ódio e raiva de mim mesmo por nunca ter dito nada mais claramente. Eu achava que você já sabia mas fingia não saber, ou que sabia mas não falava nada por não corresponder aos meus sentimentos... eu achava tanta coisa que nem sei mais o que eu achava.
Acontece que lembro dos teus olhos negros e a expressão de incompreensão presente neles quando chegava o inverno e você dizia que queria alguém para te aquecer, para assistir a filmes embaixo das cobertas tomando chocolate quente, alguém pra dançar músicas bregas no final de festas mais bregas ainda, alguém para "abrir todas e cada uma das portas". Alguém que tivesse contigo um romance de músicas e de filmes, alguém pra completar teus trocadilhos. E eu permanecia ali. E esperava o momento certo, o momento em que você iria perceber que esse alguém sempre esteve ali e era eu. Mas você nunca, nunca percebia. Você sempre quis alguém em quem se apoiar, e meus ombros que sempre estiveram a tua disposição, esses ombros você nunca usava. Por quê, Gabriel? Por quê? Orgulho? Medo? Eu era bom para ser amigo mas não o suficiente para ser namorado?
E então você fitava os meus olhos e dizia coisas sobre a vida. Dizia que eu sempre poderia conseguir o que eu quisesse, e que eu realizaria todos os meus sonhos. Me incentivava e dizia que eu deveria ir atrás daquilo que eu sonhava. E o que eu fiz, Gabriel? O que eu fiz? Eu acreditei em você, segui todos teus conselhos e vim parar aqui: do outro lado do mundo, em uma cidade fria e cinzenta, longe, longe demais de ti. Pra quê? Pra acordar tarde em um domingo, olhar pela janela e perceber que nada disso valeu a pena? Que ter estudado durante meses sem dormir direito, que ter abdicado da vida pessoal, que ter aturado pessoas inaturáveis, que tudo isso foi em vão? Perceber que o cinza dessa cidade de romântico nada tem, que a neve perdeu a magia e que o frio é realmente frio? Que pra escapar desse gelo que me cerca eu entro em um café e fico procurando teu rosto entre aqueles ingleses, e que eu nunca encontro? Foi pra isso que você mandou eu realizar os meus sonhos? Pra descobrir que nada, absolutamente nada, nem o passeio naquela roda gigante, que nada disso tem valor algum somente porque você não está do meu lado?
Sabe qual é a minha suspeita? Minha suspeita é que todos esses desejos que eu tanto batalhei para realizar, que esse meu sonho britânico seja mais teu do que meu. Que você seja muito mais eu do que eu mesmo. Entende? Eu sei que sim, afinal de contas você sempre entende, portanto não me faça explicar. E também não me pergunte o que é tudo isso porque eu não sei. Não sei se é amor, se é paixão, se é falta de cachaça... eu não sei. Não precisa nem pensar, e se for pra sentir pena então é melhor que não sinta nada. Apenas larga de mão desse capricho bobo de não querer ser conquistado e vem pra cá de uma vez. Vem pra cá viver esse romance de inverno embaixo do nosso céu de Londres.
Com carinho,
Gui.
Ps: As passagens estão dentro do envelope amarelo. Faça bom uso.
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escrevi ele há dois anos. e re-escrevi hoje. estranho como agora faz muito mais sentido.
13.1.11
1.
40 dias e 40 noites. foi só o que precisou pra que eu passasse o resto da minha vida esperando ele voltar. clichê, eu sei. acontece que hoje, 60 anos depois, a única coisa que me vem à mente é aquela terça-feira. de todo e cada momento da minha existência, de todos as manhãs, de cada pôr-do-sol - eu só consigo me lembrar daquele de Estrela. da poltrona verde, com as mãos trêmulas e a vista cansada, tentando bordar qualquer enfeite de natal - que no final, eu sei, vai sair meio torto e com aquele ar idiota -, enquanto meus olhos escapam do meu controle volta e meia e acabam fitando a porta numa esperança desenfreada de que ele simplesmente esteja ali, com os cabelos castanhos e com o vento, enquanto simplesmente existo esperando ele voltar, quando tento recordar qualquer momento dos meus 77 anos, só consigo me lembrar daquela tarde na beira do lago e daquele abraço, o qual desejo com todo meu resto de vida, nunca ter deixado se soltar.
...
4.8.10
i'm home
olho por cima do computador e vejo a prateleira vejo o escuro entre as tábuas da prateleira me impedindo de encontrar seu fundo vejo aqueles dois olhos vermelhos me fitando de cima da madeira se movendo percebendo minha atenção e correndo para a direita. fico assustada fico morrendo de medo tenho vontade de gritar por socorro mas me dou conta de que estou sozinha no vigésimo andar e ninguém vai me ouvir. desligo tudo pego minha bolsa pego as chaves abro a porta fecho a porta tranco a porta minha bolsa pego minha bolsa pego o elevador estou na rua. respiro fundo quero o ar quero a liberdade que só aquela cidade mais cinzenta que o normal pode oferecer a liberdade dos prédios velhos e do cimento e da calçada. caminho pela calçada caminho pelo cimento. a liberdade dos vãos entre os prédios velhos da sombra no vão entre os prédios velhos a sombra entre as paredes de concreto me impedindo de encontrar o fundo do beco e olho procurando pelo fundo do beco e vejo centenas daqueles olhos vermelhos me fitando percebendo minha atenção. e agora são milhares e eles não se movem pra direita se movem pra frente e eu caminho mais rápido e vejo os olhos saindo da penumbra da sombra na minha direção e vejo suas e seus dentes afiados e seu pêlo cinza e nojento e caminham na minha direção calmamente como se aquilo fosse premeditado como se eles raciocinassem como se eu fosse a presa e eles caçadores estrategistas. começo a correr o scarpin preto machucando meu calcanhar e dói e eu corro do mesmo jeito e aqueles olhos horríveis naquele corpo nojento caminham mais rápido atrás de mim pela calçada de cimento atravesso a rua deserta só eu e a noite e um milhão de olhos vermelhos me perseguindo enquanto eu corro o mais rápido que posso e parece que nunca é suficiente e eles correm mais rápido com suas patinhas cor de rosa pegajosas atrás de mim no cinemento. meus pés doem não consigo pensar na dor não consigo pensar só a imagem daquelas criaturas me alcançando com seus dentes e seus rabos longos meus pés doem eu corro. pego minha bolsa pego a chave da porta cadê a chave da porta? por que eu uso essa bolsa tão grande? eles estão cada vez mais próximos e eu não acho a chave e pego a chave e a fechadura e a porta e eles estão perto muito perto quase alcançando meu calcanhar machucado do scarpin quando a porta abre e eu entro fecho a porta a cara de um deles esmagada na soleira. minhas costas contra a madeira o suor escorrendo por todo meu corpo. caio.
estou exausta e o suor no meu rosto tiro os sapatos meus pés pintados de escarlate da cor daqueles olhos o sangue saindo dos inúmeros cortes quero chorar a casa está tão vazia não vejo flores não ouço vitor ramil não sinto o cheiro do bacon todas as janelas estão fechadas. meus pés doem vou até a cozinha manchando o porcelanato de vermelho e abro a geladeira a lâmpada queimada tudo escuro sem comida tudo vazio exceto por aqueles dois olhos vermelhos me fitando bato a porta não! não aqui dentro não na minha casa não! que nojo! que nojo! imagino o rato nojento abrindo o pacote de pão e roendo as migalhas não quero não quero imaginar quero ir embora dali não me sinto segura nem dentro da minha própria casa eu tento gritar mas a voz não sai e não tem ninguém em casa. abro o armário procurando pelo veneno mas não consigo alcançar porque vejo os olhos vermelhos e eles me vêem e saem correndo do armário da pia e passam correndo pelos meus pés descalços aqueles ratos imundos sinto as patas frias e pegajosas tocando minha pele não grito minha voz não sai não consigo me mexer que nojo! que nojo. não acho o veneno quero a vassoura quero uma espingarda quero uma bomba não sei o que fazer são muitos muitos ratos e eles saem de dentro do meu armário. corro pra mesa corro pras cadeiras subo na cadeira estou segura na cadeira ratos não sobem em cadeiras meus pés doem meu estômago dói tenho fome e os ratos na minha cozinha os vermes imundos correndo animais imundos bichos imundos amontoando-se no chão da minha cozinha.
não sei quanto tempo fiquei na cadeira ainda é noite demais sinto muita fome e eles ficam me vigiando na minha cozinha estico a mão e dói meu braço e dóis minhas costas e eu estico mais e alcanço o armário de biscoitos e abro a porta de madeira e quero comida mas lá de dentro da penumbra ele pula e arranha minha cara e pula outro e emaranha-se nos meus cabelos e eu tento bater nos ratos imundos e eles não soltam e meus cabelos e meu rosto e eu tento gritar e minha boca o rabo dele na minha boca os bigodes nos meus olhos quero vomitar. estou no chão todos os ratos correndo na minha direção eu sou uma vítima deles jogada no porcelanato da cozinha e me levanto e piso em alguns quero me livrar preciso me livrar preciso fugir sair correndo. abro a janela e milhões de ratos entram na minha casa eu corro corro corro dentro da minha casa e eles correm atrás de mim. se eu alcançar a escada talvez a escada eu corro pela minha casa vazia os ratos nos meus calcanhares subindo pelo meu tornozelo roendo minha pele roendo tudo me atacando como se eu fosse uma migalha de pão. subo os degraus os ratos sobem comigo os dentes fundos de mais nas minhas coxas. entro no meu quarto a cama de casal feita e vazia e tudo escuro e um rato morto preso em mim e tiro o rato e tranco a porta e agora eu estou.
caminho até a cama quero minha cama quero meus lençóis limpos e aquele cheiro de lírio. quero minha casa cheia de lírios de novo ou pode ser o cheiro do bacon quero vitor ramil tocando no meu rádio. e deito na minha cama deito no meu refúgio ali eles não conseguem chegar nenhum rato nenhum demônio consegue subir na minha cama nos meus lençóis limpos. mas eles sobem. eles saem de dentro dos meus armários e do ventilador e dos canos e das paredes e por baixo das portas e da pia do banheiro e do ralo do banheiro e de tudo de tudo saem os ratos milhões e milhões de ratos e sobem na cama e eu me escondo embaixo dos lençóis como quando eu era criança e me escondia pra espantar o medo do escuro me escondo e quero espantar os ratos e quero que eles me deixem em paz mas não. os ratos só sabem me atacar e querem me comer e sobem nos lençóis e entram nos lençóis e sobem em mim e eu quero gritar eu quero chorar não consigo a voz não sai e eles sobem em cima de mim com as patas frias e os rabos pegajosos e roem meus dedos roem meus tornozelos roem tudo cobrem meu corpo quero morrer quero morrer eles não deixam os dentes perfurando minha pele invadindo meu corpo ratos roendo todo meu corpo subindo pelas minhas coxas e não, por favor, não e entram em mim entram e me roem por dentro e dói e roem meu útero roem tudo entram por tudo minha boca minha garganta meus ouvidos meus olhos não consigo gritar eles me roem e dói e eu sangro e só eu e a penumbra. abraço a mim mesma.
abro os olhos. você me abraça. estou em casa.
17.5.10
23.4.10
era cedo quando abri os olhos e vi os raios de sol invadindo o meu quarto, tímidos. Respirei fundo e o teu cheiro insuportável de marlboro invadiu minhas narinas, queimando minha laringe, minha traqueia e se instalando nos meus pulmões exatamente como as borboletas haviam se instalado no meu estômago na noite anterior. virei o rosto. o lado esquerdo da cama impecavelmente arrumado, assinalando a tua não-presença. tentei identificar, ainda meio confusa, de onde vinha aquele aroma de tabaco. nem o travesseiro e nem os lençóis. teu cheiro parecia exalar de mim mesma, da minha pele, pelos meus poros. afinal, meu coração tinha decidido te bombear para todo o meu corpo, espalhando esse teu cheiro pelo meu sangue, te fazendo correr pelas minhas veias, tomando conta de cada canto de mim e me obrigando a desejar, mais do que nunca, a tua mão sobre meu peito.
17.4.10
Tem dias, como hoje, que acordo desejando ser um romântico. Acordo querendo entender Neruda e os teus olhos azuis.
Porque você sabe, Lê, ontem dormi pensando em ti. Caí no sono com teu retrato no meu colo, tua imagem estática sorrindo pra mim um sorriso congelado e sem paixão, tão diferente daquele com o qual eu havia me acostumado. Sonhei com teus braços, abraços e beijos. Sonhei com a tua mão sobre meu peito, com as nossas partidas de xadrez. Sonhei que assistia contigo o novo filme do Woody Allen. Sonhei com nossos dedos entrelaçados, com os quadros do Renoir e com aquela sinfonia - sinfonia? - do Vivaldi. Sonhei contigo e com o nosso amor.
Acordei, então, desejando ser um romântico. Acordei desejando ter valorizado todos os nossos momentos lindos quando tive a oportunidade, ter sussurrado poesias no teu ouvido ao amanhecer, ter lido todos os livros que você me indicava, ter escrito cartas de amor e serenatas.
Porque, quem sabe, Lê, quem sabe, se eu tivesse feito tudo isso, se eu tivesse sido o namorado culto e elegante que você tanto almejava, quem sabe se eu fosse um romântico e entendesse Neruda, aí, Letícia, quem sabe, talvez você não tivesse dado praquele poeta-metido-a-cantor. Sua puta.
29.3.10
this is hell
há algum tempo lembrei de quando faltava luz. lembrei de mim mesma com sete anos no escuro da sala, olhando pela janela aberta. lá fora, o mundo todo iluminado. ao meu redor, o aconchego da falta de luz e das histórias com príncipes e princesas que me invadiam a mente. lembrei como era bom ficar imersa nas próprias fantasias, completamente desconexa da realidade, mergulhada no próprio vazio de pensamentos. então, lembrei como esse vazio - que eu gostava tanto - foi sendo preenchido aos poucos pela tua presença.
semana passada acabou a luz. de novo. porto alegre é um inferno no verão e a porra do sistema não consegue gerar energia pra todo mundo. como eu dizia, a luz. eu fitava o ventilador imóvel, meu pensamento e meu coração sofrendo tua falta, invejando meu eu de sete anos que não sabia o que era se apaixonar. desejava o sono, na esperança de que ele espantasse tua ausência e a dor que ela me causava. daí, toca o telefone.
por que sempre tem que ser assim? quando as coisas estão bem, quando a vida está voltando a acontecer, quando eu já consigo passar mais de duas horas sem perder meus pensamentos em algum lugar do nosso passado, quando minhas pálpebras estão quase se tocando e me levando pra longe de toda essa merda de saudade... volta. sempre volta.
aí, eu atendo, tentando evitar o sorriso que invade minha boca ao ler teu nome na tela do celular. atendo tentando mentir pra mim mesma que é como qualquer outra ligação, que agora eu não tenho tempo, que meus dias de estudo e de chaplin são cheios de mais pra tua presença ridícula do outro lado da linha. e aí ouço tua voz e me perco em algum lugar entre o carlitos e qualquer outra referência.
você me faz rir, daquele jeito insuportável que ninguém mais consegue; diz que sentiu minha falta, que foi ver alguma comédia romântica e lembrou de mim; eu, aqui, sou toda sorrisos e comentários idiotas, toda pequeninha perto de toda tua cultura e humor; contamos as novidades, falamos de músicas, das conversas passadas; relembramos os filmes que assistimos juntos; eu digo o quanto fiquei feliz com a ligação, digo que, finalmente, estou "exatamente onde eu deveria estar"; agradeço pelas palavras, pelos conselhos, por todos os filmes e livros indicados;
fico pensando em como éramos perfeitos juntos. penso em como eu fui tola e me deixei modelar à tua imagem e semelhança, como se tu fosses um deus e eu tua criatura; olho para minha estante e te encontro ali, sempre presente de alguma forma, entre elizabethtown e cullum. penso que se hoje eu sou quem eu sou e não alguma engenheira ou historiadora é por culpa tua e de toda aquela porcaria que eu via, ouvia e lia para te impressionar. lembro das nossas conversas noite a dentro, do sexo no chuveiro, do frio todo romântico interrompido pelo teu abraço e me pergunto como a situação ficou desse jeito. como eu não pude te esquecer depois de 978 dias de distância.
ouço tua risada do outro lado da linha, aquela risada meio torta, e sinto meu coração ficar apertado. lembro de você dizendo que me amava, que eu era indispensável, sua melhor amiga. "às favas a porra da amizade!"... mas eu sempre calava e sorria.
é quando a conversa se estende pro fim, quando eu olho pela janela e vejo algumas luzes do outro lado da cidade que me lembro daquela certeza absoluta de que nenhum garoto jamais vai chegar aos teus pés. nenhum deles vai ser tão perfeito, nenhum comentário tão engraçado. a certeza de que jamais vou me apaixonar novamente, porque de algum jeito tua ausência é sempre presente e teu jeito é sempre perfeito, e nenhum deles, nenhum, jamais, conseguirá ser melhor que você seria se estivesse do meu lado. eu penso em ir até você. penso em sair numa porto alegre quente e negra, às dez da noite, comprar uma passagem e me enfiar em algum avião até londres agora mesmo.
e então você me fala dos mares, das anas; das garotas ruivas, magras e brancas; me fala da moça que ouve jeff buckley e lê gabriel garcía márquez (olho pra coleção da rowling na minha estante e me sinto ridícula). você me fala que a ama, que ela é perfeita; eu tenho vontade de mandá-los tomar no cú: você, sua mulher ruiva e a porra da música que vocês ouvem antes de dormir. mas, novamente, eu calo e sorrio. digo que você merece toda a felicidade do mundo. você diz que me ama, que eu vou sempre ser sua melhor amiga, que gostaria de ter tido uma irmã como eu. me dá boa noite, me promete uma carta - que eu já sei, não vais escrever, porque te conheço melhor do que imagina - e manda um beijo.
tento, com todas minhas forças, me livrar de todas as promessas de beijos e de letras e me afogar em alguém que não queira minha amizade. como eu tento.
as luzes acendem, o ventilador começa a girar. o celular, agora desligado, é testemunha dessa porra de relação que sempre volta.
ligo o computador. espero.
23.3.10
worship the rain, fall for the sun
existe uma tênue barreira separando o virtual de toda a realidade. como a janela que, em dias de muita tempestade, parece prestes a se quebrar inundando o quarto com a chuva e o cheiro de terra que é tão bom. e eu posso adorar a chuva, posso desejar que todos os dias sejam agraciados com o som das gotas batendo contra o vidro, contanto que a janela não se quebre, contanto que o coração e o quarto não sejam inundados, contanto que a vida continue tranquila. transpôr essa barreira seria como ficar nua debaixo da água, presa do lado de cá da janela, afundando.
mas mesmo que a paixão pela chuva seja inevitável, mesmo que a disposição para abandonar tudo e fugir rumo ao norte exista em algum lugar perto do pulmão esquerdo, mesmo que os dias de tempestade sempre voltem pra lembrar como seu som e cheiro são perfeitos, nada se compara ao sol no domingo de manhã. nada se compara com a sublime sensação de vê-lo nascer no horizonte, de enxergá-lo tão perto e alcançável, de sentir o seu calor aconchegante invadindo o quarto, mesmo quando a janela está fechada. de ficar a três milímetros do raio de luz e senti-lo aquecendo a pele do meu braço direito, trazendo à tona aquele sorriso.
porque mesmo que exista uma espécie de desejo contido pela utopia virtual separada de mim por uma barreira com 1.109 km de espessura, nada, nada se compara com o que eu sinto quando acordo do teu lado no domingo de manhã.
21.10.09
Tudo aquilo que deveria ter sido meu
Reencontrei com Laís três anos depois. Vi-a sentada em um café de mãos dadas com nosso antigo professor. Senti inveja.
Estava tudo errado.
...porque aqueles lábios deveriam ter sido meus. Os abraços, os beijos. As juras de amor, a viagem pra Paris, o café no fim de domingo. Tudo aquilo deveria ter sido meu. Tudo deveria ser só meu.
Até mesmo o sorriso dela deveria ser só meu.
Estava tudo errado.
...porque aqueles lábios deveriam ter sido meus. Os abraços, os beijos. As juras de amor, a viagem pra Paris, o café no fim de domingo. Tudo aquilo deveria ter sido meu. Tudo deveria ser só meu.
Até mesmo o sorriso dela deveria ser só meu.
4.10.09
reclamações ao meu Senhor
o problema maior de todos, não é querer alguém impossível. é não conseguir ninguém que o substitua.
porque, francamente, Senhor, foda-se a sua filosofia de "não é possível substituir pessoas". você entrou no meu coração de tal maneira, tomou conta de todos meus pensamentos e sonhos e então me diz que não me quer, me diz que essa minha paixão adolescente vai passar e que eu vou ser a pessoa mais feliz do mundo, que eu vou encontrar o amor verdadeiro. foda-se você e suas hipocrisias. não é certo que você me encante com sua voz, com suas palavras tão belas, com as frases e as lições de vida, não é certo que você exalte minha beleza, que me elogie e elogie o que eu escrevo e então me descarte como mulher. não é minha culpa se ao fechar os olhos é você quem eu vejo, que quando durmo meus sonhos são sempre com você, que tento imaginar minha vida daqui a dois meses sem a sua companhia e só enxergue o vazio. essa vida que eu tenho levado não é justa. que eu procuro o rosto do Senhor no meio da rua, entre as multidões, nas salas de cinema e mesas de restaurante caros, porque só a esperança de tropeçar em você faria do meu dia o dia mais especial. me faria feliz, tropeçar em você por aí, como em um filme romântico, no qual nos amaríamos para sempre. não é justo, Senhor, que eu procure você em outros, e é menos justo ainda que eu nunca encontre. porque procuro tua barba e teus lábios no rosto deles, mas nunca é a mesma maciez. procuro tua eloqüência, teus pensamentos, tua maturidade e me decepciono a cada fala, a cada gesto. não é justo que o seu abraço seja melhor que o deles, que o seu cheiro esteja impregnado em mim e todos os outros cheiros me dêem asco. não é justo, Senhor, que o mundo tenha me feito vinte anos longe de você, mas com menos de 5 km de diferença. que tenha me feito apaixonada por você e tenha feito você tão não correspondente aos meus sentimentos. injustiças, injustiças.
não é justo que eu queira ficar com você e eu ficando com o Senhor seja impossível.
porque, francamente, Senhor, foda-se a sua filosofia de "não é possível substituir pessoas". você entrou no meu coração de tal maneira, tomou conta de todos meus pensamentos e sonhos e então me diz que não me quer, me diz que essa minha paixão adolescente vai passar e que eu vou ser a pessoa mais feliz do mundo, que eu vou encontrar o amor verdadeiro. foda-se você e suas hipocrisias. não é certo que você me encante com sua voz, com suas palavras tão belas, com as frases e as lições de vida, não é certo que você exalte minha beleza, que me elogie e elogie o que eu escrevo e então me descarte como mulher. não é minha culpa se ao fechar os olhos é você quem eu vejo, que quando durmo meus sonhos são sempre com você, que tento imaginar minha vida daqui a dois meses sem a sua companhia e só enxergue o vazio. essa vida que eu tenho levado não é justa. que eu procuro o rosto do Senhor no meio da rua, entre as multidões, nas salas de cinema e mesas de restaurante caros, porque só a esperança de tropeçar em você faria do meu dia o dia mais especial. me faria feliz, tropeçar em você por aí, como em um filme romântico, no qual nos amaríamos para sempre. não é justo, Senhor, que eu procure você em outros, e é menos justo ainda que eu nunca encontre. porque procuro tua barba e teus lábios no rosto deles, mas nunca é a mesma maciez. procuro tua eloqüência, teus pensamentos, tua maturidade e me decepciono a cada fala, a cada gesto. não é justo que o seu abraço seja melhor que o deles, que o seu cheiro esteja impregnado em mim e todos os outros cheiros me dêem asco. não é justo, Senhor, que o mundo tenha me feito vinte anos longe de você, mas com menos de 5 km de diferença. que tenha me feito apaixonada por você e tenha feito você tão não correspondente aos meus sentimentos. injustiças, injustiças.
não é justo que eu queira ficar com você e eu ficando com o Senhor seja impossível.
21.9.09
da série de pequenas confissões que eu não deveria escrever
(...) olhei pra ela com um aperto no coração, um estranho nó na garganta que eu não sabia de onde vinha e falei: "Vai lá, não precisa ficar aqui comigo. Vai te divertir". Respondeu sem hesitar, como as pessoas modestas responderiam a um elogio "Não, evidente que não. Vou ficar aqui."
E então eu reuni toda minha educação e minha energia naquela costura de palavras que significavam o completo oposto do que eu realmente gostaria de ter dito: "Eu vou ficar bem, pode ir". Aí ela me fitou e, mirando no fundo dos meus olhos, disse: "Eu não quero."
(...)
certamente ela não queria sair do meu lado com medo de topar com o ex-namorado no meio da multidão, e embora eu saiba disso melhor que ninguém, ainda me arranca um sorriso sempre que imagino ela querendo ficar do meu lado simplesmente por ser o meu lado.
E então eu reuni toda minha educação e minha energia naquela costura de palavras que significavam o completo oposto do que eu realmente gostaria de ter dito: "Eu vou ficar bem, pode ir". Aí ela me fitou e, mirando no fundo dos meus olhos, disse: "Eu não quero."
(...)
certamente ela não queria sair do meu lado com medo de topar com o ex-namorado no meio da multidão, e embora eu saiba disso melhor que ninguém, ainda me arranca um sorriso sempre que imagino ela querendo ficar do meu lado simplesmente por ser o meu lado.
7.7.09
Laís Nunca Mais
Havia alguma coisa no sorriso dela que o deixava encantado. Nunca havia pensado sobre isso, mas tinha certeza que era no sorriso. E era uma certeza grande, que vinha de dentro e dizia: seja lá o que for, está no sorriso. Maurício realmente não sabia o que era, mas se tornava tão óbvio quando ela entrava na sala. Nunca havia dirigido a ela uma única sílaba, mas a impressão que tinha era de que já haviam passado eternas tardes entregues às mais discretas confissões.
Se no início fazia aquilo pela necessidade do dinheiro, hoje faria até de graça, só pelo prazer de vê-la sorrindo nas quintas-feiras. O sorriso. Todo o encanto se resumia no tal sorriso.
Laís, dezessete anos e cursando o ensino médio. Era só o que sabia. O semestre já estava no fim, a havia visto todas as semanas durante seis meses e nem ao menos uma palavra. De qualquer forma, seria errado demais. Convidá-la para um jantar, ou até mesmo o mais singelo café. Qualquer convite, qualquer elogio, qualquer troca de olhares seria errado.
Tentou se conformar em vê-la pela última vez. Chamou o último aluno marcado na caderneta e entregou o teste para ele. Todos haviam sido aprovados. Nada melhor para um professor do que saber que todos os alunos de seu curso haviam aprendido a matéria. Com calma, Maurício se levantou, apagou as anotações feitas no quadro e se dirigiu para a turma:
- All right, guys. Congratulations to all of you. Good luck and enjoy your vacations!
A felicidade na classe era geral. As risadas e a alegria de terem concluído o curso. Maurício observou os alunos recolhendo os livros e saindo da sala, alguns o cumprimentavam, outros agradeciam. Laís não. Laís passou reto, rindo e conversando com as amigas. Ah, o sorriso. Percebeu então que jamais o veria de novo. Sentiu um aperto no coração. Queria chamá-la, queria agir. Fazer qualquer coisa para impedir que aquilo acabasse. No fundo, sabia que Laís era apenas um sonho. Sabia que ela era apenas a personificação daquilo que ele mais desejava em uma mulher. Ele sabia, mas não conseguia aceitar. Sabia que ela, provavelmente, era como todas as outras garotas de dezessete: imatura, impulsiva, ciumenta. Sabia que ela não era nada daquilo que imaginava. Talvez Laís nem gostasse de café. Maurício olhou para a porta e viu Laís indo embora. E junto com ela ia embora o sorriso, a curiosidade, o encanto. O sonho indo embora, para sempre.
Se no início fazia aquilo pela necessidade do dinheiro, hoje faria até de graça, só pelo prazer de vê-la sorrindo nas quintas-feiras. O sorriso. Todo o encanto se resumia no tal sorriso.
Laís, dezessete anos e cursando o ensino médio. Era só o que sabia. O semestre já estava no fim, a havia visto todas as semanas durante seis meses e nem ao menos uma palavra. De qualquer forma, seria errado demais. Convidá-la para um jantar, ou até mesmo o mais singelo café. Qualquer convite, qualquer elogio, qualquer troca de olhares seria errado.
Tentou se conformar em vê-la pela última vez. Chamou o último aluno marcado na caderneta e entregou o teste para ele. Todos haviam sido aprovados. Nada melhor para um professor do que saber que todos os alunos de seu curso haviam aprendido a matéria. Com calma, Maurício se levantou, apagou as anotações feitas no quadro e se dirigiu para a turma:
- All right, guys. Congratulations to all of you. Good luck and enjoy your vacations!
A felicidade na classe era geral. As risadas e a alegria de terem concluído o curso. Maurício observou os alunos recolhendo os livros e saindo da sala, alguns o cumprimentavam, outros agradeciam. Laís não. Laís passou reto, rindo e conversando com as amigas. Ah, o sorriso. Percebeu então que jamais o veria de novo. Sentiu um aperto no coração. Queria chamá-la, queria agir. Fazer qualquer coisa para impedir que aquilo acabasse. No fundo, sabia que Laís era apenas um sonho. Sabia que ela era apenas a personificação daquilo que ele mais desejava em uma mulher. Ele sabia, mas não conseguia aceitar. Sabia que ela, provavelmente, era como todas as outras garotas de dezessete: imatura, impulsiva, ciumenta. Sabia que ela não era nada daquilo que imaginava. Talvez Laís nem gostasse de café. Maurício olhou para a porta e viu Laís indo embora. E junto com ela ia embora o sorriso, a curiosidade, o encanto. O sonho indo embora, para sempre.
5.6.09
25.6.08
Tem essa gente apaixonada, né. Que depois de 10h. de aula olha ao redor e diz "nossa, como o cabelo das pessoas fica bonito no inverno!". Que escreve cartas quilométricas dizendo sempre as mesmas coisas idiotas, mas onde os outros apaixonados vêem algo único a cada vírgula. Que contam sua história como se relembrassem do filme preferido e que, no final, resumem tudo ao "agente se ama". Um "agente se ama" tão cheio de certeza e convicção, que te faz acreditar tanto quanto eles em tal verdade. Essa gente apaixonada, que troca recados todos os dias, que morre de saudades depois de 10min. de ausência, que sente ciúmes até de um arbusto, que ouve a mesma música durante semanas com o mesmo sorriso bobo estampado no meio da cara. Essa gente apaixonada, que vê porcos púrpuras voando por aí e pessoas com o cabelo bonito no inverno, essa gente que viaja pro interior de Serafina Corrêa e experimenta leite de vaca não-industrializado, essa gente que vai no cinema e assiste a qualquer filme, essa gente que molda o presente, o futuro e até o destino de uma maneira estúpida pra "ficar por perto". Essa gente apaixonada, que de repente se mostra tão poeta quanto Camões e tão sensível e vulnerável quanto o vaso de porcelana da casa da nossa tia avó. Essa gente mesmo, que anda por aí de mãos dadas rindo da vida, que desperta o amor em alguns e a inveja na maioria, essa gente que vê o mundo como se ele tivesse passado por um tratamento de imagem do photoshop. Essa gente feliz que ama e ama mais e ama incondicionalmente e que se apaixona mais a cada segundo pelo mesmo idiota. ♥
24.3.08
Sabe, João, eu gosto disso. Dessa sensação de tranqüilidade que tenho do teu lado. De dormir com os dedos entrelaçados, tua mão na minha. Fechar os olhos e sentir todos os pensamentos esvaindo da minha mente. É seguro, é agradável. Ou, colocando nas tuas palavras, é conveniente.
E eu te amo, João. Hoje tenho essa certeza. Certeza de que aquilo que no início era apenas afeto e carinho cresceu, e cresceu muito. E hoje é amor, é amor. É respeito, é admiração, é querer te fazer a pessoa mais feliz do mundo, é te amar todo o tempo e por completo. É ter essa certeza de que você se encaixa no meu dia-a-dia e que eu te quero do meu lado pra sempre.
E então você tem a ousadia de olhar na minha cara e dizer que o nosso amor é um amor de bom dia. E eu vou ficando pequeninha, pequeninha na tua frente, diante da tua convicção e da tua falta de reciprocidade. E você pega o meu coração, toca ele no chão, e pisa, pisa, pisa. E me dói tanto, ah, João, como me dói.
Pois eu sei que deveria ter te dito tudo isso na nossa última conversa, mas acabei engolindo. Engoli os sentimentos, as palavras e as lágrimas. Tudo. E simplesmente fingi que concordava com você, fingi que isso não me afetava tanto. Pois eu digeri e agora tenho vontade de vomitar tudo isso em cima de ti. De jogar na tua cara minhas olheiras e os travesseiros meio úmidos, todo o meu amor e toda a minha certeza, toda essa porra de conveniência de bom dias e de Kid Abelha.
Mas se eu fizesse isso então você me diria que "o teu erro foi acreditar que estar ao meu lado bastaria" e eu ficaria menor e menor, e meu coração terminaria de se destruir, embora eu acreditasse com todas as minhas forças que basta.
E dessa vez eu não vou nem te pedir pra concordar comigo, apenas pra que me dê outra chance. Deixa eu passar mais uma semana do teu lado e te mostrar todo esse amor sobre o qual eu tanto falo. Deixa eu te mostrar que toda essa intensidade que você tanto diz querer você pode encontrar nos meus bom dias. E por fim, deixa eu te mostrar que nossa conveniência é suficiente, e essa suficiência, esse não-transbordar de paixões e sentimentos, os olhos e os lábios calmos, a falta de taquicardia, são suficientes. Que o simples fato de eu e você existirmos na segunda pessoa do plural já é o movente mais intenso e perfeito de todo o universo.
E eu te amo, João. Hoje tenho essa certeza. Certeza de que aquilo que no início era apenas afeto e carinho cresceu, e cresceu muito. E hoje é amor, é amor. É respeito, é admiração, é querer te fazer a pessoa mais feliz do mundo, é te amar todo o tempo e por completo. É ter essa certeza de que você se encaixa no meu dia-a-dia e que eu te quero do meu lado pra sempre.
E então você tem a ousadia de olhar na minha cara e dizer que o nosso amor é um amor de bom dia. E eu vou ficando pequeninha, pequeninha na tua frente, diante da tua convicção e da tua falta de reciprocidade. E você pega o meu coração, toca ele no chão, e pisa, pisa, pisa. E me dói tanto, ah, João, como me dói.
Pois eu sei que deveria ter te dito tudo isso na nossa última conversa, mas acabei engolindo. Engoli os sentimentos, as palavras e as lágrimas. Tudo. E simplesmente fingi que concordava com você, fingi que isso não me afetava tanto. Pois eu digeri e agora tenho vontade de vomitar tudo isso em cima de ti. De jogar na tua cara minhas olheiras e os travesseiros meio úmidos, todo o meu amor e toda a minha certeza, toda essa porra de conveniência de bom dias e de Kid Abelha.
Mas se eu fizesse isso então você me diria que "o teu erro foi acreditar que estar ao meu lado bastaria" e eu ficaria menor e menor, e meu coração terminaria de se destruir, embora eu acreditasse com todas as minhas forças que basta.
E dessa vez eu não vou nem te pedir pra concordar comigo, apenas pra que me dê outra chance. Deixa eu passar mais uma semana do teu lado e te mostrar todo esse amor sobre o qual eu tanto falo. Deixa eu te mostrar que toda essa intensidade que você tanto diz querer você pode encontrar nos meus bom dias. E por fim, deixa eu te mostrar que nossa conveniência é suficiente, e essa suficiência, esse não-transbordar de paixões e sentimentos, os olhos e os lábios calmos, a falta de taquicardia, são suficientes. Que o simples fato de eu e você existirmos na segunda pessoa do plural já é o movente mais intenso e perfeito de todo o universo.
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